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Enquanto o prefeito João Doria (PSDB) descreve as instalações do mais recente abrigo inaugurado em São Mateus, na zona leste de São Paulo, imagens mostram detalhes do lugar destinado a receber 182 moradores de rua por dia.

O vídeo, com 55 mil visualizações, faz parte do extenso acervo audiovisual que o prefeito acumula em uma rede social para divulgar feitos de sua gestão. Até a última quarta (14), porém, quase três meses após a veiculação das imagens, nenhum morador de rua havia entrado no CTA (Centro Temporário de Acolhimento) São Mateus.



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Segundo o secretário Filipe Sabará (Assistência Social), problemas no fornecimento de energia elétrica, descobertos apenas no dia da inauguração, atrasaram o início do atendimento.



Quando a Folha esteve no endereço, na segunda (12), além de usuários, também não estava mais lá parte do mobiliário e dos eletrodomésticos que aparecem nas imagens divulgadas por Doria .

Um conjunto de armários de ferro em frente às camas tipo beliche enfileiradas nos dormitórios tinha sumido, assim como duas máquinas de lavar roupa e uma geladeira que apareciam nos registros oficiais. "[As máquinas] foram encaminhadas para um CTA que tinha condições de funcionar", disse Sabará.

Sobre a ausência de usuários, o secretário diz que moradores de rua entraram no local dois dias após a visita da reportagem. No caso dos equipamentos, foram parar no CTA Parque Novo Mundo.

"Não faz sentido ter uma linha branca em um CTA que não funcionava por questões elétricas. A conta que tem que ser feita é quantos milhões o município ganhou com essa obra ao deixar de gastar devido às doações." O secretário diz que não foi responsável pela transferência dos itens. "Não decido se algo que é doado vai ficar lá ou não."

Segundo o secretário, a ONG gestora deverá arcar com a compra dos itens retirados caso sinta a necessidade. No caso, deverá usar a verba de implantação de R$ 25 mil prevista em contrato. Ele afirma também que a verba mensal de R$ 167,5 mil não será repassada à entidade enquanto o local estiver fechado.

Três máquinas de lavar roupa que aparecem durante inauguração do CTA Mooca, em 7 de dezembro, também foram retiradas após a visita do prefeito. "Deve ter tido um problema elétrico e precisaram ser levadas para outro endereço", diz Sabará.

Em sua maioria, os CTAs são imóveis ociosos emprestados para a prefeitura pela iniciativa privada. Há casos em que a prefeitura paga aluguel e, em outros, a própria administração cede imóveis para serem transformados em abrigos da cidade.

Os locais são bem equipados, considerados como espaços VIP para os sem-teto.

REPETIÇÃO

Script parecido foi seguido no fim de fevereiro, quando Doria esteve em Guaianases para inaugurar mais um abrigo, para 120 pessoas.

Na terça (13), a Folha esteve no local e viu que, quase um mês depois, os beliches continuavam intactos.Ninguém tinha usado também os kits de higiene dispostos sobre os travesseiros exibidos por Doria diante da câmera para mostrar as marcas doadoras de pasta de dente, xampu e desodorante.

A pasta afirmou que ainda aguarda a formalização do convênio com a ONG terceirizada para abrir as portas. "O que impede o prefeito de inaugurar um prédio que está pronto e sem gasto de dinheiro público?", diz Sabará.

O endereço no extremo leste da capital é o mais recente de uma maratona de inaugurações de centros temporário de acolhimento iniciada no mês de dezembro. Em apenas um mês, foram cinco novos abrigos divulgados pelo prefeito, que faz questão de frisar nos vídeos o cumprimento da meta de entregar 16 novos endereços até o fim de seu primeiro ano de gestão – Doria deve deixar a prefeitura em abril, após 15 meses no cargo, para disputar a eleição para o governo do estado.

Imagens do descerramento da placa do CTA Guaianases acumulam 94 mil visualizações na página de Doria, que costuma finalizar os vídeos em que inaugura equipamentos de assistência social com o bordão "São Paulo acelerando seu coração".

Em outro vídeo, divulgado em outubro e que já teve 50 mil visualizações, Doria promete entregar um CTA em Campo Limpo em janeiro.

A construção ainda nem foi iniciada e tem, agora, previsão de entrega da obra em até um ano. O secretário diz que, como a obra foi doada, não pode cobrar a entrega no prazo prometido pela empresa. Com informações da Folhapress.