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A principal entidade internacional que monitorou o pleito presidencial russo afirmou nesta segunda (19) que os eleitores não puderam fazer uma "escolha real". Esse foi o veredicto da Osce (Organização para Segurança e Cooperação na Europa), da qual a Rússia faz parte e que enviou 219 observadores ao país. Vladimir Putin, como era previsto, se reelegeu com uma votação recorde de 76,7%.

A Osce divulgou nota com críticas mais amplas sobre o real problema do pleito russo: o ambiente ossificado da política local e o domínio da retórica do governo sobre os meios de comunicação.



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Para Michael Link, coordenador da missão, isso falou mais alto do que as fraudes que foram registradas. Houve casos de obstrução do trabalho de observadores ou de preenchimento de urnas com votos falsos, a maioria registrada pelas câmeras nas seções eleitorais.



A ONG Golos contou 900 violações deste tipo, um número que considera insuficiente para alterar o resultado. "No geral, as eleições foram livres", disse Link. O problema é mais estrutural. "Escolha sem competição real não é escolha real", disse a Osce. "Pressão persistente sobre a sociedade civil, falta de reportagens críticas, esforços coordenados para aumentar o comparecimento."

Grupos próximos de Putin, como a Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático) e o centro de observadores da Comunidade de Estados Independentes (ex-União Soviética) elogiaram a disputa. A Comissão Eleitoral Russa disse que o número de incidentes em apuração é metade do que ocorreu em 2012, e considerou a disputa justa.

O oposicionista Alexei Navalni, que foi barrado do pleito por ter uma condenação judicial, disse que seus 33 mil monitores encontraram vários problemas e que está estudando organizar novos atos. Uma dúvida diz respeito à questão do comparecimento, ponto de honra para o Kremlin dar caráter de legitimidade à eleição. Quando faltavam duas horas para o fechamento das urnas no horário de Moscou, a comissão eleitoral divulgou que o comparecimento era de 59,5%.

Quase cinco horas depois, sem dar a evolução de dados no hiato, a comissão elevou o dado em oito pontos percentuais, quase chegando a 68%, número mágico para o Kremlin. A explicação dada é que regiões afastadas demoraram em computar seus dados, mas a falta de atualização ficou sem resposta.

Ainda nesta segunda, num ato algo irônico para quem recusou a ir a qualquer debate, Putin convidou ao Kremlin os sete candidatos que derrotou. Todos compareceram para "serem ouvidos", segundo o governo.

REAÇÃO INTERNACIONAL

O Ocidente reagiu com apatia ao triunfo. Na noite do domingo, a lista dos líderes que o congratularam era também previsível. Entre os primeiros estavam o líder chinês, Xi Jinping, e o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro.

A lista foi engordando com telefonemas de ex-repúblicas soviéticas, Irã, Cuba e a cada dia mais autocrática Hungria. Pela manhã, ligaram primeiros-ministros de países democráticos: Índia e Japão. O Ocidente, ainda digerindo a disputa entre Reino Unido e Rússia, reagiu lentamente.

A Alemanha informou que enviaria seus parabéns, e o ministro das Relações Exteriores falou que a eleição não foi exatamente justa, mas o Kremlin é essencial para lidar com crises no mundo. A abordagem foi criticada por políticos poloneses, entre os mais russófobos da União Europeia. Já franceses e italianos tenderão a enviar suas congratulações porque há negócios a fazer: Roma quer maior atuação na área de gás e Emmanuel Macron visitará Putin em maio. Com informações da Folhapress.