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Mal havia sido divulgada a pesquisa de boca de urna que dava uma vitória acachapante para Vladimir Putin, os algo caricatos comentaristas do canal oficial Russia Today já se perguntavam se o presidente estenderia seu mandato de seis anos.

Dito e feito, Putin foi perguntado sobre isso na rápida entrevista que deu na noite da vitória, no domingo (18). Repreendeu o repórter com uma brincadeira, dizendo que não ficaria no poder até os cem anos, mas antes soltou que "no momento" não pensa em mudanças constitucionais.



Assegurado o leme do Kremlin com números expressivos, decorrentes de um sistema fossilizado de pouco acesso à política e temperado com fraudes pontuais, Putin agora vai se dedicar ao trabalho de comandar o maior país do mundo enquanto implementa a permanência de seu poder.

A exemplo do que fez com os "siloviki" ("durões"), ex-espiões da KGB como ele que dominam as estruturas de poder do Kremlin desde os anos 2000, ele cevou uma casta para o "passo adiante" que prometeu no domingo.



São todos jovens com perfil técnico, sendo treinados em cargos administrativos de regiões russas.Destacam-se Anton Alinkhanov, 31, governador do encrave russo de Kaliningrado, cercado por inimigos europeus do Kremlin.

Segundo o analista politico Konstantin Frolov, o jovem político é o modelo que Putin procura –mas não necessariamente quem vai virar seu sucessor.

"Ele busca a continuidade não só do putinismo, mas dele mesmo no poder. Como isso vai acontecer, não sabemos. É cedo", diz, lembrando que a história russa é contada por disputas cortesãs que acabaram mal.

Outros nomes citados, que foram notados no Ocidente ao serem lembrados em um extenso artigo do Financial Times sobre o tema, são os dos governadores Alexander Koslov (região de Amur, 37 anos) e Andrei Nikitin (Novgorod, 38 anos).

Eles são parte da leva indicada nos dois últimos anos por Putin: ele trocou a chefia de 20 de 85 governos regionais por nomes com menos de 50 anos.

No Kremlin, ele trocou o antigo homem-forte Serguei Ivanov, 65, um "silovik" que foi ministro da Defesa, por um diplomata de 46 anos chamado Anton Vaino para ser seu secretário pessoal.

Vaino tem origem estoniana, o que dificulta muito sua ascensão política, mas o fato de ser um virtual desconhecido lembra um pouco o joão-ninguém Putin que entrou no Kremlin em 1996 pela porta da administração presidencial.

Já Ivanov ganhou uma consolação: viu o filho homônimo, de 37 anos, virar chefe da estatal que produz diamantes. Por ora, ele está sob a esfera de Dmitri Medevedev, 52, que já foi o herdeiro presumido de Putin.

Em 2008, Medvedev ocupava o cargo de premiê, visto como a antessala da Presidência –Putin tinha sido primeiro-ministro de Boris Ielstin. Foi catapultado ao Kremlin, mas governou sob a sombra do protetor, instalado ironicamente como premiê.

De volta ao cargo anterior em 2012, Medvedev se desgastou com denúncias de corrupção. Após um período de grande instabilidade, segundo relatou à reportagem uma pessoa com acesso parcial ao círculo de Putin, o premiê resolveu enfrentar os boatos de que seria sacado agora.

APARÊNCIAS

Se vai dar certo, não se sabe. Ele pode ou ficar ou ceder a cadeira à tecnocrata Elvira Nabiullina, 54, presidente do Banco Central, por dois ou três anos. Só aí, segundo o relato, que um candidato a sucessor poderá emergir.

Mas essa mesma pessoa não duvida que isso ocorra com a indicação de Putin a algum cargo mais que honorário. Diferentemente até aqui de gente como o chinês Xi Jinping, que virou virtual líder para o resto da vida, Putin sempre prezou as aparências ""e sabe que precisa manter a expectativa de poder de grupos rivais no Kremlin para reinar como moderador.

Um bom exemplo é a rixa entre Medvedev e Igor Setchin, visto por muitos como o homem que assumiria o poder se Putin ficasse incapacitado.

Com 57 anos, o presidente da petroleira estatal Rosneft tem fama de implacável e de usualmente vencer seus embates com Medvedev. É de se especular se ele assistiria a ascensão de um rival jovem de forma indiferente.

Se chegar ao fim do mandato em 2024, Putin terá 72 anos. Se vai querer chegar "aos cem anos" em evidência, é incerto, mas dificilmente irá deixar sua sucessão correr solta. Com informações da Folhapress.