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A maior operação contra os roubos de cargas e veículos comandada pelo Exército no Rio durante a intervenção federal vazou um dia antes e ajudou os criminosos a fugirem do Complexo do Lins antes da chegada das tropas na madrugada de terça (27).

A ação, que mobilizou 3.400 militares, terminou com um resultado frustrante: 24 pessoas presas, 10 kg de maconha, além de cocaína e crack em quantidade não divulgada, apreendidos.



Foram capturadas também duas pistolas 9mm, um revólver 32mm, munição em quantidade não informada, 10 carros e 11 motos. Nenhum fuzil foi apreendido.

Moradores da comunidade relataram que desde a tarde de segunda (26) já se comentava no complexo de favelas da possibilidade de uma ação das Forças Armadas na região.



Ao ser questionado sobre alguns dos moradores da comunidade terem tomado conhecimento na véspera da operação, o porta-voz do Gabinete de Intervenção, o coronel Roberto Itamar, admitiu que o vazamento é "previsto e controlado pelo planejamento".

Mesmo assim, Itamar afirmou que operação no complexo de favelas, que fechou por mais de cinco horas a auto-estrada Grajaú-Jacarepaguá, obteve sucesso.

"O fato de não ter um grande número de apreensões não significa que foi um insucesso. O trabalho da inteligência foi realizado, mostrou que podemos entrar em qualquer lugar no Rio e forçamos o movimento da criminalidade", disse Itamar.

No ano passado, uma operação no Lins realizada pelo Exército durante a GLO (Garantia da Lei e da Ordem) também vazou.

Dias depois, um soldado recruta do Grupo de Artilharia e Campanha do Exército foi preso suspeito de vazar informações das tropas federais em operações no Lins e em Niterói.

O Exército deverá realizar novas operações na comunidade nos próximos dias.

Além do tráfico de drogas, criminosos do Complexo do Lins também praticam roubos de cargas e veículos na região.

"A intervenção nunca prometeu efetividade e rapidez. Todos sabem das dificuldades de trabalhar numa área urbana de comunidade. É uma tarefa difícil. Não tem ninguém trabalhando fora da legalidade. Isso peso a favor do outro lado. Mas faz parte do jogo", afirmou Itamar.

BANGU 3

Sob pressão para apresentar resultados da intervenção federal, as Forças Armadas iniciaram uma nova fase na terça e realizaram uma série de ações ao mesmo tempo. Além da operação no Complexo do Lins, os militares realizaram inspeções no presídio Bangu 3 e em três Batalhões da PM e patrulhamento ostensivo nas principais vias e áreas turística.

Militares investigam a possibilidade de vazamento na inspeção em Bangu 3. Apenas um celular foi apreendido. Os presos jogaram os aparelhos pelo sistema de esgoto do presídio.

INTERVENÇÃO

A inédita intervenção federal no Rio foi anunciada pelo presidente Michel Temer (MDB) em 16 de fevereiro, com o apoio do governador Luiz Fernando Pezão, também do MDB.

Temer nomeou como interventor o general do Exército Walter Braga Netto. Ele, na prática, é o chefe das forças de segurança do estado, como se acumulasse a Secretaria da Segurança Pública e a de Administração Penitenciária, com PM, Civil, bombeiros e agentes carcerários sob o seu comando.

O Rio de Janeiro passa por uma grave crise política e econômica, com reflexos diretos na segurança pública. Desde junho de 2016, o estado está em situação de calamidade pública e conta com o auxílio das Forças Armadas desde setembro do ano passado.

Não há recursos para pagar servidores e para contratar PMs aprovados em concurso. Policiais trabalham com armamento obsoleto e sem combustível para o carro das corporações. Faltam equipamentos como coletes e munição.

A falta de estrutura atinge em cheio o moral da tropa policial e torna os agentes vítimas da criminalidade. Somente no ano passado 134 policiais militares foram assassinados no estado.

Policiais, porém, também estão matando mais. Após uma queda de 2007 a 2013, o número de homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial está de volta a patamares anteriores à gestão de José Mariano Beltrame na Secretaria de Segurança (2007-2016). Em 2017, 1.124 pessoas foram mortas pela polícia.

Em meio à crise, a política de Unidades de Polícia Pacificadora ruiu -estudo da PM cita 13 confrontos em áreas com UPP em 2011, contra 1.555 em 2016. Nesse vácuo, o número de confrontos entre grupos criminosos aumentou.

Apesar da escalada de violência no Rio, que atingiu uma taxa de mortes violentas de 40 por 100 mil habitantes no ano passado, há outros Estados com patamares ainda piores.

No Atlas da Violência 2017, com dados até 2015, Rio tinha taxa de 30,6 homicídios para cada 100 mil habitantes, contra 58,1 de Sergipe, 52,3 de Alagoas e 46,7 do Ceará, por exemplo. Com informações da Folhapress.