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O enterro de Mireille Knoll, a mulher judia de 85 anos que foi assassinada em casa em um ataque considerado antissemita na última sexta-feira (23), expõe as divisões da França.

Knoll nasceu em 1932, filha de pai brasileiro, e conseguiu escapar do cerco nazista aos judeus. Ela e a mãe chegaram a ser levadas pela polícia para uma arena esportiva, por onde passaram outros 13 mil judeus -entre eles 4.000 crianças.



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Esse evento ficou conhecido como a Rusga do Velódromo de Inverno de Paris e ocorreu em julho de 1942, sob os auspícios do governo colaboracionista de Vichy. Desses 13 mil judeus, apenas cem sobreviveram.



Knoll, então com nove anos, e sua mãe, só tiveram permissão para deixar o velódromo devido ao passaporte que conferia a ela nacionalidade brasileira, em razão do pai. Quem não saiu de lá naqueles dias foi enviado a Auschwitz, na Polônia, conforme contou seu filho, Daniel Knoll, a uma rede de TV israelense. Do velódromo, Mireille foi para Portugal e, depois, para o Canadá, até voltar à França, casada com um francês sobrevivente de Auschwitz.

O cortejo marcado para quarta-feira (28) pelo diretor do Conselho Representativo de Instituições Judaicas (Cirf), Francis Kalifat, mostrou o racha da sociedade francesa. No momento em que políticos como a líder de extrema-direita Marine Le Pen e o líder de esquerda Jean-Luc Mélenchon anunciaram que participariam da marcha, o Crif disse que eles não eram bem-vindos.

Os políticos, porém, se apoiaram numa fala do filho de Knoll, que disse que qualquer um poderia participar do evento para lutar contra o antissemitismo. "Estou apenas abrindo meu coração a todos." A possível motivação antissemita foi aventada porque os dois suspeitos de terem cometido o crime -Knoll teve seu apartamento queimado, mas legistas comprovaram que ela morreu por ter levado 11 facadas- relataram em depoimento que quem desferiu os golpes de faca gritou "Deus é o maior", em árabe. O fato levou o governo francês a investigar o caso como crime por motivo religioso.

Os líderes políticos e seus simpatizantes, porém, ignoraram o pedido do Crif. Logo após o enterro, em Bagneux, na periferia sul de Paris, a marcha começou, e houve desentendimentos entre adeptos de Le Pen e Mélenchon. Daniel Knoll, mais tarde, lamentou as divisões em uma marcha concebida para unir as pessoas. "Hoje, todos nós deveríamos estar unidos, toda a França… É inadmissível."

Outras marchas em homenagem a Knoll foram realizadas em Lyon, Marselha e Estrasburgo. No mês passado, a Justiça francesa confirmou que o assassinato, em abril de 2017, de Sarah Halimi, uma judia ortodoxa de 65 anos, teve motivação antissemita. Com informações da Folhapress.