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A decisão de prender o ex-presidente Lula em Curitiba e a demora em sua chegada trouxeram, além do suspense, um clima misto de "fim de caso" e de desilusão entre os que se beneficiaram das políticas do petista.

"Roubou, mas fez", resumiram juntas Benedita Alves, 66, e Jandira da Silva, 56, que hoje têm imóveis próprios graças ao Minha Casa, Minha Vida, pelos quais pagam R$ 80 por mês.



Diaristas, elas vivem com cerca de R$ 800 por mês, votaram em Lula e Dilma e escolheriam de novo o petista. "Tem um lado de coisas erradas, mas os outros nunca fizeram nada", diz Jandira.

Desde o lançamento em 2009, o programa entregou cerca de 3,5 milhões de moradias, 1/3 delas altamente subsidiadas, embora o Brasil siga com um déficit de 6 milhões de habitações.



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Em 2013, o programa chegou a atingir R$ 14,3 bilhões do Orçamento, segundo a ONG Contas Abertas, e auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) encontrou problemas em construções e falta de escolas e postos de saúde no entorno.

Antes de Dilma Rousseff cair em 2016, o financiamento do Minha Casa, Minha Vida envolveu "pedaladas fiscais": o fundo do FGTS que o financia aportou um dinheiro a mais que seria da responsabilidade do Tesouro, que atrasou o reembolso.

Na educação, programas criados por Lula também tiveram problemas de financiamento e rombos, que acabaram agravando o atual quadro fiscal do país.

Mas eles também beneficiaram milhões de pessoas, o que ajuda a explicar o apoio ao ex-presidente, não necessariamente nos processos em que é acusado.

Casos de Jenifer Ribeiro, 17, e Lucas Emanuel, 18, que estudam em universidades privadas de Curitiba que custam R$ 1.500 por mês com bolsas integrais do ProUni.

"Não me lembro bem do governo dele, mas sei que a vida parecia melhor naquele período", diz Lucas, cujos pais trabalham e têm renda de R$ 2.800 por mês. Ele considera o processo contra Lula justo. "Mas acabou polarizando a corrupção em um lado só, o do PT."

Já a mãe de Jenifer está desempregada e vive de seguro-desemprego. "Se o STF tivesse dado o habeas corpus a Lula nesta semana, haveria um precedente para os demais condenados por corrupção", diz a estudante de jornalismo com a bolsa do ProUni.

IMPOSTOS

Nos dez anos desde a criação do programa, o governo deixou de arrecadar em impostos das instituições privadas de ensino que oferecem as vagas estimados R$ 8 bilhões, com a oferta de cerca de 2,5 milhões de bolsas, a maioria integral.

Outro programa para universitários, o Fies, de 2010, entrou em xeque depois que uma auditoria do TCU sustentou que o governo Dilma havia "escondido" uma dívida de R$ 3,1 bilhões com as faculdades, numa espécie de "pedalada" na educação.

O tribunal indicou que o rombo poderia chegar a R$ 20 bilhões no início da próxima década.

Para além dos programas de seu governo, como Bolsa Família (que atende 14 milhões de famílias ao custo de R$ 29 bi/ano) e o Luz Para Todos (15,5 milhões de novas eletrificações), Lula também foi lembrado em Curitiba por conta de uma melhora no ambiente econômico em seu governo.

"Lula começou com uma boa base deixada pelo governo FHC. Mas conseguiu aumentar as oportunidades de emprego e o acesso a bens, principalmente por causa do crediário", diz o taxista Orlando Soares, 61, que comprou carro zero em 60 prestações em 2009.

"Mas isso não desculpa o fato de que o Lula não só roubou como facilitou para que outros roubassem também." Com informações da Folhapress.