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Poucas vezes se ouviu falar tanto de Mark Zuckerberg quanto nas últimas semanas, num burburinho que não deve arrefecer tão cedo. Nesta semana, o fundador e presidente do Facebook depõe ao Congresso americano pela primeira vez desde a criação da rede social, em 2004. As audiências estão marcadas para terça (10) e quarta (11).

A empresa está sob um escrutínio inédito de políticos, investidores e internautas acerca da segurança dos dados dos usuários e de sua responsabilidade na difusão de informações falsas e de manipulações políticas.



+ Zuckerberg testemunhará dia 11 de abril sobre dados

A tensão chegou a um nível incontornável há três semanas, quando veio à tona que cerca de 50 milhões de pessoas haviam tido seus dados vazados e vendidos sem autorização para a divulgação de propaganda política pela consultoria Cambridge Analytica. O número depois foi revisado para cima, alcançando os 87 milhões.



O arsenal foi usado para ajudar a eleger o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e para impulsionar o apoio à saída do Reino Unido da União Europeia, o 'brexit', entre outras campanhas.

Os usuários tiveram seus dados colhidos irregularmente ao autorizar que um teste de personalidade os acessasse; a Cambridge Analytica também conseguiu obter informações de perfil de toda a rede de contatos de quem participou da brincadeira. No total, quase metade dos 2 bilhões de pessoas que usam o serviço foi atingida.

O episódio acrescentou fervura a um caldo que já incluía o uso de centenas de perfis falsos por agentes russos para difundir boatos durante as eleições americanas de 2016, episódio que rendeu um mea-culpa da companhia e outras convocações (malsucedidas) para Zuckerberg comparecer ao Congresso americano.

"Estou interessado em saber qual é a visão de Mark Zuckerberg para que o Facebook assuma responsabilidade pelo que acontece em sua plataforma", afirmou o senador republicano John Thune, presidente de um dos comitês que ouvirão o executivo.

'LAISSEZ-FAIRE'

Durante anos, o Facebook resistiu em regular ou verificar os conteúdos que circulavam em seus domínios. A empresa sempre sustentou que não era uma companhia de mídia, mas de tecnologia -e assim se eximiu de cumprir leis e regulações vigentes para o setor, em especial no que se refere à divulgação de propaganda eleitoral e à obrigação de revelar quem paga por anúncios.

Agora, o executivo parece ter entendido a gravidade da situação. "Não assumimos nossa responsabilidade de forma ampla o suficiente, e esse foi um grande erro", disse, na semana passada. Zuckerberg chegou a sugerir a implantação de uma espécie de tribunal do Facebook, órgão independente que julgaria se determinados conteúdos podem ou não ser publicados na plataforma. Segundo os executivos, a empresa continuará neutra, mas será "mais cautelosa" –e não irá tolerar, por exemplo, discursos de ódio.

Em tempo: a companhia perdeu aproximadamente US$ 75 bilhões (R$ 252 bilhões) em valor de mercado desde as revelações do caso Cambridge Analytica, além de ter sofrido uma sangria de anunciantes. Em paralelo, está sob pressão de legisladores e governantes de várias latitudes, que estudam investigá-la e lhe impor multas e regulações.

DESCULPAS

Nas últimas duas semanas, o fundador da rede social saiu em sua defesa. Deu longas entrevistas, pagou anúncio de página inteira nos principais jornais dos EUA pedindo desculpas e prometeu mudanças aos investidores.

Zuckerberg não quer chegar ao Congresso de mãos vazias. Por isso, a empresa já aprimorou os controles de privacidade para os usuários, anunciou ferramentas para dar publicidade a quem paga por anúncios e disse que irá aumentar o time de segurança de dados.

Mas os deputados e senadores não devem ser condescendentes. Em ofício enviado a Zuckerberg, informaram estar especialmente preocupados com os dados colhidos na plataforma por terceiros, como a Cambridge Analytica, e o uso dessas informações para fins políticos.

Os congressistas não definiram o que farão a seguir. Se o depoimento não convencer, a chance de que proponham leis para aumentar a transparência e a proteção de dados por companhias como o Facebook aumenta, ainda que haja uma resistência histórica à regulação entre políticos dos EUA.

AUDIÊNCIAS

Três comissões do Congresso ouvirão Mark Zuckerberg: a primeira audiência é conjunta, de dois comitês do Senado; a segunda é do comitê de Energia e Comércio da Câmara. Zuckerberg fará um pronunciamento inicial e depois responderá a questões. Audiências anteriores com executivos de redes sociais levaram até 3h.

Os depoimentos não integram uma investigação específica e foram convocados diante das notícias recentes sobre o Facebook. Mas podem fundamentar propostas de novas regras sobre a privacidade digital e controles sobre a publicidade online. Com informações da Folhapress.