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O designer Alexandre Wollner morreu nesta sexta-feira (4), aos 89 anos, na capital paulista. Ele estava internado desde o último dia 1º no Hospital São Paulo em decorrência de um acidente vascular cerebral.

Nos anos 1950, quando o Brasil passava por um momento de industrialização, Wollner passou a criar identidades visuais que ficaram gravadas no imaginário do país, como a logomarca do banco Itaú e as antigas embalagens das sardinhas Coqueiro.



Tornou-se, com seus desenhos sempre muito equilibrados e de grande precisão geométrica, o pai do design moderno brasileiro.

Wollner, que iniciou sua formação no Instituto de Arte Contemporânea, em São Paulo, já na infância dava pistas do seu talento como artista. Filho de costureira, ele costumava desenhar com exatidão os modelitos das últimas revistas francesas.



Em 1953, Wollner vinculou-se ao Grupo Ruptura, conjunto de artistas que marcou o início do movimento de arte concreta.

No mesmo ano, porém, ele iria para a Alemanha estudar na Escola de Ulm, sucessora da Bauhaus, que fora fechada após perseguições do governo nazista.

A experiência mudaria não só a carreira de Wollner mas também a história do design no país. Ao voltar ao Brasil, o artista passou a implantar os resultados de seus estudos na Alemanha, como a apropriação das letras e números como símbolos para mostrar a força de uma marca.

"Ele conseguiu trazer o rigor e a disciplina germânicas para os trópicos", diz o designer Eduardo Foresti. "Seus trabalhos são irretocáveis, perenes, e de uma importância muito grande para o design gráfico brasileiro".

Para Jacó Guinsburg, fundador da editora Perspectiva, "dizer que ele era um filho da escola de Ulm não é justo". Ou, ao menos, não é suficiente.

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Guinsburg foi cliente de Wollner, que criou a identidade visual, até hoje em uso, da editora criada em 1965. Para o editor, Wollner "trouxe para cá não só uma ideia e uma escola como suas próprias ideias sobre a escola".

"Ele aprendeu a transformar a essência do conceito de uma marca com equilíbrio e clareza a fim de ficar marcado na memória", diz Flávio Cohn, diretor de arte contemporânea da galeria Dan, que representou Wollner.

"Ele não entendia o design gráfico como algo subjetivo, mas sim como uma coisa útil, em contraposição da arte", afirma Elaine Ramos, diretora da arte da editora Ubu e coautora do livro "Linha do Tempo do Design Brasileiro".

As ideias firmes do designer fizeram com que por vezes fosse visto como uma pessoa difícil. Elaine Ramos diz que seu caráter variava de "briguento" a "amoroso". "Ele era genioso, mas sempre muito carinhoso com os designers mais jovens."

Foi essa a impressão pessoal que ele deixou no ilustrador Tony de Marco. "Ele era tido como rabugento, mas se você passasse a barreira inicial, ele era um doce de pessoa. Ele dizia que eu estava perdido se eu fosse sua maior influência."

De Marco diz que seu trabalho com ilustração na Folha, que se desenvolveu de 1989 a 1992, derivou da convivência com o design de Wollner no dia a dia.

"Esse estilo conciso e o design sintético, com poucas linhas e que as linhas fossem visíveis, tudo isso veio dos logotipos que eu admirava dele."

Também designer, Rico Lins conta que teve algumas "divergências" com Wollner.

"Eu questionava um pouco a metodologia dele e achava que tinha uma orientação muito germânica, sendo muito funcionalista e linear, que dava as costas ao Brasil", diz.

Mesmo tendo apelidado Wollner de "jovem rabugento", os dois apresentaram palestras juntos e Lins convidou Wollner para a AGI (Alliance Graphique Internationale), grupo que conta com designers de diversas partes do mundo.

Para Guinsburg, porém, Wollner não era teimoso, mas sim "um homem que tinha ideias próprias e que ele acreditava nelas". "Se você acredita nas suas ideias, acha que elas correspondem à essência das coisas e devem ser assim, devam ser assim, você defende essas ideias."

Claudio Rocha, designer e editor de uma revista sobre tipografia, frisa a seriedade de Wollner. "Ele era famoso por ser crítico. Em uma ocasião, eu tive que redesenhar um logotipo dele e ele ficou sentido com os clientes."

Quando o designer completou 60 anos de carreira, em 2013, ganhou uma mostra dedicada à sua obra no Museu de Arte Aplicada de Frankfurt.

Naquela ocasião, disse à Folha da importância que dava para o rigor geométrico. "Nada pode ser feito sem seguir uma proporção, senão tudo cai", afirmou.

Mesmo tendo diminuído o ritmo, Wollner trabalhou até o fim da vida. Nos últimos tempos, de casa, com a ajuda de um assistente.

Ele deixa mulher e um filho. O velório seria nesta sexta (4), no Cemitério São Paulo (r. Luiz Murat, 245), a partir das 20h; até a conclusão desta edição não havia mais informações sobre o funeral. Com informações da Folhapress.