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Negócios considerados suspeitos pelo Ministério Público de São Paulo e a amizade com Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da Dersa apontado como operador financeiro do PSDB, derrubaram o presidente da CCR, o engenheiro Renato Alves Vale, 70.

Ele estava no cargo desde que a empresa foi fundada, há 20 anos. A CCR chegou a ser a quinta maior empresa de concessões de infraestrutura do mundo, mas vem perdendo valor após um delator apontar que usava caixa dois.



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A saída de Vale, marcada para o dia 31/7, está ligada a uma estratégia de sanear a empresa, segundo a reportagem apurou, e não a uma reestruturação de diretoria, como anunciado.



A CCR também negocia um acordo de leniência com o Ministério Público de São Paulo no qual pretende contar que fez uma doação para o caixa dois da campanha do tucano Geraldo Alckmin em 2010, no valor de R$ 5 milhões, conforme a Folha revelou em maio.

Leniência é uma espécie de delação para empresas. Alckmin, pré-candidato à Presidência, nega que tenha recebido recursos ilícitos.

O negócio suspeito feito pela CCR, segundo o Ministério Público, foi o uso do operador financeiro Adir Assad, que diz ter gerado R$ 46 milhões em caixa dois para a companhia.

Empresas usam caixa dois para doar a políticos, corrompê-los em troca de favores ou para pagar bônus a seus diretores sem recolher impostos.

Assad foi preso pela Lava Jato em junho de 2016 e fez acordo de delação no qual diz ter gerado R$ 1,7 bilhão em caixa dois para empreiteiras.

Vale havia recebido conselhos para deixar o cargo desde que a delação de Assad veio a público, em fevereiro deste ano. O desempenho do executivo, porém, era visto como extraordinário na CCR.

Em 2001, a receita da empresa era de R$ 931 milhões; no ano passado, chegou a R$ 8,9 bilhões. Só neste ano, com a revelação do caixa dois, a empresa chegou a perder R$ 11,8 bilhões em valor de mercado: caiu de R$ 33,5 bilhões para R$ 21,7 bilhões.

O mercado de ações reagiu bem à saída de Vale. Na segunda (23), as ações da empresa subiram 4,36%. Neste terça (24) houve uma queda de 0,71%. Agora a CCR vale R$ 22,6 bilhões na Bolsa.

Num dos depoimentos que prestou à força-tarefa da Lava Jato, Assad diz ter emitido notas de R$ 46 milhões para a CCR sem prestar os serviços pelos quais fora contratado.

Dito de outra forma: Assad diz que transformou parte dos R$ 46 milhões em recursos de caixa dois por meio de contratos de terraplanagem não executados. Assad devolvia o dinheiro para a CCR, que o utilizava para fins ilícitos, e ficava com uma comissão.

Há exceções, porém. Em alguns casos, Assad chegou a prestar licitamente o serviço pelo qual foi contratado. Ele intermediou, por exemplo, uma aparição da marca CCR na Rede Globo e em eventos esportivos.

Ao mesmo tempo em que negocia o acordo com o Ministério Público, a CCR criou um comitê independente, do qual faz parte o ex-ministro do STF Carlos Veloso, para investigar o destino dos R$ 46 milhões gerados por Assad.

Também integram o comitê o consultor André Béla Jánszky e os conselheiros independentes da CCR Luiz Alberto Colonna Rosman e Wilson Nélio Brumer. Eles são assessorados por um escritório de advocacia, o Tozzini&Freire, e por empresas especializadas em apurar irregularidades em grandes corporações . A CCR tem cerca de 14 mil funcionários.

Caberá a esse grupo apurar o quanto dos R$ 46 milhões foi gasto com atividades lícitas e ilícitas. Uma das hipóteses analisadas é se fiscalização sobre as estradas em que a CCR ganhou a concessão foi afrouxada após a suposta doação a Alckmin.

OUTRO LADO

A CCR afirma que a saída de seu presidente "é fruto de um processo de reestruturação da empresa iniciado em 2014 e que ainda está em curso". A empresa diz só se manifestará sobre os R$ 46 milhões quando o comitê encerrar o trabalho de investigação.

A assessoria do pré-candidato Geraldo Alckmin não quis se pronunciar sobre a suposta doação dos R$ 5 milhões. Em maio, ele disse que a versão da CCR era falsa. Com informações da Folhapress.