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Na hora do parto, ter alguém para segurar a mão e fornecer o apoio necessário faz toda a diferença. Pensando nisso, pesquisadoras do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará têm reforçado o papel das pessoas escolhidas para acompanhar as mulheres na sala de parto, mostrando como podem contribuir para uma maior segurança no nascimento da criança e bem-estar da mãe.

Iniciado em 2005 com cursos de preparação para gestantes, o estudo resultou recentemente em uma cartilha voltada às grávidas e aos acompanhantes, que recebem melhor preparo desde o pré-natal até o puerpério (fase pós-parto). Além disso, a cartilha pode ajudar a reduzir o número de intervenções profissionais desnecessárias nas mulheres, contribuindo para um parto que respeita a fisiologia da mulher.

A Profª Ana Kelve Damasceno, coordenadora da pesquisa, lembra que já há, também desde 2005, a Lei Federal do Acompanhante, que obriga os sistemas de saúde a aceitar a presença de uma pessoa da escolha da gestante na sala de parto, mas não havia uma preparação adequada desse acompanhante. “O parto envolve muita emoção e a pessoa acaba não sabendo como ajudar da melhor forma”, diz.

Para elaborar a cartilha, a equipe se baseou em práticas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O órgão considera que há práticas ‒ geralmente intervencionistas e agressivas para com o corpo das mulheres ‒ que devem ser abolidas ou ter uso restrito. Segundo a Profª Ana Kelve, pesquisas já comprovaram que ocorre redução no emprego dessas técnicas quando há um acompanhante presente, por isso é importante a orientação prévia.

A Profª Ana Kelve é a coordenadora da pesquisa (Foto: Viktor Braga)

“Há intervenções que os profissionais de saúde fazem para acelerar o parto. Quando a mulher tem um acompanhante, o parto acontece da maneira mais fisiológica possível, respeitando a vontade da mãe”, explica.

O documento também traz informações sobre a própria identificação do momento de parto, muitas vezes um fator determinante no sucesso do nascimento. “A hora de ir para a maternidade, sinais e sintomas que podemos observar, o que fazer durante o parto, quais estímulos fazer, como dar apoio: são informações importantes”, ressalta a professora.

Nascida de um projeto de mestrado, a cartilha já foi validada e testada clinicamente no Centro de Desenvolvimento da Família (CEDEFAM) e na Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (MEAC), da UFC. O objetivo agora é testar, por meio de um ensaio clínico randomizado, a efetividade, levando em conta variáveis como o desfecho do parto e a satisfação da mulher.

PRÁTICAS INTERVENCIONISTAS

A Profª Ana Kelve afirma que ainda há uma prevalência de práticas abusivas nos partos, muito intervencionistas. Isso significa o uso de medicações desnecessárias, corte do períneo (episiotomia) para ampliar o canal de passagem do bebê ou mesmo a colocação da mulher em posição horizontal (a verticalidade é o ideal para o momento do parto). “A maioria dessas mulheres não tem a presença do acompanhante”, diz.

Capa da cartilha para acompanhantes de parto (Foto: Reprodução)

Cartilha desenvolvida na pesquisa passa agora por ensaio clínico, antes de ser disponibilizada (Foto: Reprodução)

Para ela, uma das causas disso é que, no Brasil, mesmo em casos de risco habitual, os partos, na grande maioria das vezes, ainda não são acompanhados por enfermeiros obstetras, apontados pela OMS como os melhores profissionais para esse momento, por conta de práticas voltadas para a assistência com cuidado. Somente em casos de maior complexidade, quando algum problema fosse detectado, o médico deveria ser acionado.

“Ainda há muitos serviços e profissionais de saúde que atuam com práticas obsoletas, sem evidências científicas, além de ocorrer violência obstétrica em muitas das nossas maternidades brasileiras”, opina. “A mulher é agredida não só de forma física, mas também de forma verbal, por exemplo, ao ouvir ‘Se você gritar, não vou te ajudar’ ou ‘Até o próximo ano’, com referência a uma possível gravidez não planejada.”

Além disso, “o Brasil tem uma epidemia de cesarianas, porque é mais rápido do que esperar a mulher evoluir naturalmente. E muitas vezes é tirado o direito dela de ter informações e um parto normal. Já há uma cultura de cesárea”, aponta a professora, que define a obstetrícia como “a arte da paciência”, uma vez que deixar o processo acontecer de modo natural é essencial para um parto adequado e fisiológico, sendo a cirurgia cesariana uma opção quando o parto fisiológico não for possível.

Fonte: Profª Ana Kelve Damasceno – e-mail: anakelve@hotmail.com

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