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Integrantes do governo Trump que se identificam como conservadores e querem que sua gestão seja bem sucedida estão trabalhando para sabotar parte das ações presidenciais porque consideram o republicano amoral, afirma um funcionário de alto escalão do governo em um artigo apócrifo publicado pelo The New York Times nesta quarta-feira (5).

Segundo o texto, esses assessores avaliam que algumas das medidas de Donald Trump podem "prejudicar a saúde da república", e defendê-la é seu primeiro compromisso como servidores públicos.



O Times não publica textos anônimos, e a prática é incomum -e desrecomendada- no jornalismo. A exceção foi aberta, segundo o diário, a pedido do autor do texto, que se identifica como um membro de alto escalão do governo.

O jornal afirma saber quem escreveu o artigo, mas alega ter se comprometido a não revelar seu nome porque isso colocaria o cargo da pessoa em risco.



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O Times também convida os leitores a enviarem perguntas a respeito do texto, publicado um dia depois de o concorrente The Washington Post apresentar uma resenha em primeira mão do novo livro do repórter Bob Woodward no qual ele descreve um governo Trump tomado pelo caos, a sabotagem, a humilhação como forma de tratamento, a intriga e a ignorância. Woodward é conhecido por expor, com Carl Bernstein, o escândalo do Watergate que derrubou o então presidente Richard Nixon em 1974.

"O dilema -que ele não compreende totalmente- é que muitos integrantes graduados de seu governo estão trabalhando de forma diligente dentro do próprio gabinete para frustrar parte de sua agenda e suas piores inclinações", diz um trecho do texto não assinado sobre Trump.

O autor ou autora afirma que a resistência que existe dentro do próprio governo a seu líder não se alinha à resistência popular à esquerda, e que concorda que parte das medidas políticas do presidente foram positivas em termos de segurança e economia.

Mas aponta a falta de moral do presidente como a raiz de seus problemas e os de seu governo.

"Qualquer um que trabalhe com ele sabe que ele não tem como âncora nenhum princípio discernível para guiar suas decisões", prossegue o artigo, que critica ainda o fato de Trump arregimentar massas contra a imprensa, afirmando que esta é "inimiga do povo".

"Embora eleito como republicano, o presidente mostra pouca afinidade com ideais há muito tempo defendidas pelos conservadores: livre pensar, livre mercado e povos livres. Nos melhores momentos, ele evocou esses ideais quando previamente ensaiado. Nos piores, ele os atacou deliberadamente."

Além de criticar o impulso de Trump de cercear a liberdade de expressão, o texto, em seus 27 parágrafos, chama o republicano de anticomércio e antidemocracia. Segundo o assessor ou assessora que escreveu o artigo, os sucessos do governo Trump até agora (são listadas medidas tributárias e antirregulamentação) ocorreram apesar do presidente, e não por causa dele.

"Seu estilo de liderar é impetuoso, antagonista, mesquinho e ineficaz."

O artigo também cita a volatilidade e imprevisibilidade de Trump, seu comportamento errático, seu ímpeto em humilhar assessores (todos também descritos por Woodward em seu livro) e sua "preferência por ditadores e autocratas" no que toca a política externa.

Ainda que a maioria das alegações não seja nova, até o momento nada desse nível tinha vindo de dentro do governo. O livro de Woodward, segundo o Post, cita uma série de conversas e entrevistas com assessores e secretários de Trump, muitos dos quais criticam o presidente veladamente.

Esta, porém, é a primeira vez que alguém que integra o governo faz ataques diretos e graves ao presidente, ainda que anônimos.

Trump tem entrado em atrito com uma série de assessores e, desde que assumiu, em janeiro de 2017, mais de 15 deles pediram para deixar o cargo ou foram demitidos. Ele também entrou em embates com outros líderes de seu próprio partido, como o senador John McCain, ex-candidato presidencial que morreu no último dia 25 aos 81 anos. McCain é citado no artigo apócrifo como uma inspiração.

O artigo indica haver disposição, dentro do governo, em relatar os erros do presidente.

Isso o deixa mais vulnerável a eventuais investigações sobre sua conduta, notadamente ao inquérito do procurador especial Robert Mueller, que apura se sua equipe de campanha se aliou a agentes russos para interferir nas eleições presidenciais de 2016 e se o presidente obstruiu a Justiça ao demitir funcionários do FBI, polícia federal americana, envolvidos nessa investigação.

Para especialistas, se comprovadas, acusações desse calibre podem servir de base para um processo de impeachment ou mesmo um julgamento criminal, ainda que um e outro tenham pouca chance de avançar em um Congresso majoritariamente republicano, como é o de hoje, e uma Suprema Corte onde os conservadores são maiorias. As eleições legislativas em novembro, contudo, podem mudar esse quadro.

"A instabilidade que muitos testemunharam gerou sussurros, no gabinete, sobre a evocação da 25ª emenda, que dá início a um complexo processo para tirar o presidente do cargo", avalia o artigo. "Mas ninguém quer iniciar uma crise constitucional. Então tentaremos manobrar o governo para a direção certa até que, de um jeito ou de outro, ele chegue ao fim." Com informações da Folhapress.