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A Polícia Federal obteve gravações de telefonemas nos quais transportadores de dinheiro da Odebrecht acertam a entrega de "encomendas" com o coronel João Batista Lima Filho. Amigo do presidente Michel Temer, ele é apontado pelos investigadores como seu arrecadador de propinas.

O conteúdo dos diálogos consta do relatório final do inquérito que apurou repasses ilícitos da empreiteira para integrantes do MDB. O documento atribui ao presidente os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.



Os áudios foram captados pelo doleiro Álvaro Novis, um dos operadores da Odebrecht, dono da corretora Hoya, e entregues à PF. Também constavam dos autos da Operação Cadeia Velha, uma das fases da Lava Jato no Rio, e foram requisitados pelos investigadores.

As conversas tratam de entregas feitas em 19, 20 e 21 de março de 2014 na sede da Argeplan, empresa que pertence ao coronel. Naquela época, Temer ainda era vice de Dilma Rousseff.



No primeiro dia, teriam sido levados R$ 500 mil. Num telefonema feito antes da 10h36 a Lima, Edimar Moreira Dantas, um dos funcionários da Hoya, questionou: "Seu João? Meu pessoal está aí.

O senhor já está no local daquela encomenda?"

O amigo de Temer respondeu: "Só vou estar lá na minha base por volta das 14h30. Como é que o senhor vê ai? Dá pra passar às 14:30?"

APF rastreou registros de telefonemas para terminais da Vice-Presidência no mesmo dia. Pouco depois da conversa, às 10h47, o coronel ligou para o aparelho usado por Nara de Deus Vieira, chefe de gabinete de Temer, e manteve conversa por dois minutos e 24 segundos. Às 11h35, houve um telefonema de 55 segundos para o aparelho do próprio Temer.

A confirmação do horário da entrega se deu logo em seguida, em outro diálogo. "Hoje, então, aquela reunião foi adiada, né? Vai ser entre 3 e 5h. Das 15 às 17", avisou Márcio José Freire do Amaral, outro funcionário da Hoya, ao coronel. Ele assentiu:"Ok. Tô por lá nesse horário".

Na sequência, os dois já deixam combinados os encontros futuros. "Só que nós temos três etapas dessa reunião, que vai ser [sic] quinta e sexta-feira. Queria ver com o senhor se pode ser entre 10 e 12 h", disse Amaral.

O coronel retrucou: "Veja se vocês podem me fazer isso daí às 12h. Eu faço de tudo para estar às 12h." Encerrada a conversa, Lima ligou novamente para o terminal de Temer. Falou-se por mais quatro minutos e 58 segundos.

Pelas regras do Setor de Operações Estruturadas, o departamento de propinas da Odebrecht, era necessário apresentar uma senha para receber as quantias enviadas. No entanto, segundo a PF, o coronel não sabia o que dizer naquela ocasião e a empreiteira aceitou uma quebra de protocolo.

"Meu pessoal está aí com você? () Eles disseram que você não sabia o nome, né?", indagou Amaral a Lima na tarde daquele dia. "Então, não houve um nome. Só ficou nessa base do ok e nada mais. Só isso!", reagiu o amigo de Temer.

Nova remessa, segundo registros da Hoya obtidos pela PF, foi feita para o coronel no dia seguinte, uma quinta-feira, no valor de R$ 500 mil. Uma terceira, de R$ 438 mil, teria sido entregue na data imediatamente posterior, a uma pessoa por ele indicada.

Na segunda-feira seguinte, diante de um mal entendido na empresa, Amaral ligou para o coronel para se certificar de que tudo deu certo: "Tivemos três reuniões: quarta, quinta e sexta. Fiz na quarta, fiz na quinta, e na sexta você ia demorar, me pediu que entregasse ao Silva. As três reuniões foram concretizadas".

"Tudo bem! Tem alguma previsão pra mais alguma coisa ou não?", emendou o coronel, ouvindo que não.

Lima falou ainda sobre um aspecto da entrega mais recente: "A última, da sexta feira, em que foi entregue aí ao Silva as atas [sic], elas não foram iguais às atas anteriores, né? Ficou um pouco abaixo".

Segundo a PF, ele se referia à quantia menor, de R$ 438 mil. Na data daquele encontro, o coronel telefonou três vezes para Temer.

O sigilo dos dados telefônicos do presidente foi quebrado entre sete de fevereiro e 30 de julho de 2014. Naquele intervalo de tempo, ele e o coronel se falaram 176 vezes.

Em depoimento, funcionários da empresa Transnacional, transportadora de malotes que atendia a Hoya, confirmaram ter levado dinheiro ao endereço da Argeplan.

Questionado pela PF, Lima ficou em silêncio. Sobre sua relação com o coronel, Temer alegou, por escrito, aos investigadores: "Tal como é público e notório Joao Batista Lima Filho é meu conhecido há muitos anos. Desde quando trabalhou comigo na Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paula, em 1984." Com informações da Folhapress.