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Para o deputado Ricardo Barros (PP-PR), agora não é o momento de o Congresso se debruçar sobre as polêmicas envolvendo o senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). Ele justifica que eventual investigação sobre o caso atrapalhará a tramitação da reforma da Previdência.

O congressista culpa o Ministério Público pelo fracasso da agenda econômica durante o governo de Michel Temer e sustenta que esse mesmo roteiro pode se repetir agora. "Quem é que está solapando o Bolsonaro? MP [Ministério Público]. Quem que vaza aquelas informações seletivamente?", questiona.

"Agora vamos ficar votando CPI em vez de votar reforma?"

Barros vai disputar a presidência da Câmara como candidato avulso, ou seja, sem o apoio de seu partido, que ensaia lançar a candidatura do líder da sigla na Casa, Arthur Lira (PP-AL).

Para ele, o escândalo envolvendo o filho do presidente Jair Bolsonaro pode ficar para depois. "Não é hora de colocar o governo no 'corner', é hora de dar força para o governo fazer avançar o Brasil", disse Barros em entrevista à Folha de S.Paulo.

O deputado diz que sua candidatura é para valer, e não para aumentar o valor de seu passe para, mais na frente, receber o comando ou a relatoria de uma comissão.

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Ricardo Barros diz que a reeleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ) não significa renovação e dá detalhes do desentendimento entre o atual presidente da Câmara e o PP.

Afirma que o acordo era que Lira apoiasse Maia em troca do comando da CMO (Comissão Mista de Orçamento) para o PP, o que não ocorreu.

"A candidatura do Arthur Lira mostra que, de fato, ele não estava com esta intenção de se manter no bloco do Rodrigo Maia e consolidar o espaço político da relatoria do Orçamento que o presidente Ciro Nogueira entendia que deveria ser a tarefa do líder. O Rodrigo topou, mas o Arthur não entregou. Na prática, foi isso", afirmou. Esta eleição já tem uma série de candidatos, por que o sr. resolveu também se lançar?

Me apresento como um candidato capaz de cumprir o papel que a Câmara precisa desempenhar nesta legislatura. Um papel de protagonista. Precisa evitar o vacatio legis [referência a vácuo legislativo] que permite o Supremo ficar tomando decisões que nós deveríamos tomar aqui e precisa enfrentar as corporações. Até somos uma corporação, a Câmara.

Os deputados têm bases muitas vezes ligadas às corporações. Como conseguir o voto para fazer passar passar projetos que vão contra as bases deles?

Neste momento do Brasil, por conta das redes sociais, temos um problema para formar maioria. O governo anteriormente oferecia verba para os deputados atenderem as suas bases. Esse recurso garantia que os prefeitos repassassem os votos para os deputados. Isso não funciona mais. O prefeito não entrega mais os votos. Temos um novo desafio. Fui líder do governo Fernando Henrique, fui vice-líder do Lula, da Dilma e ministro do Temer. Sempre trabalhei na formação de maioria para aprovação de matérias. Desde que cheguei aqui, em 1995, todas as legislaturas tiveram comissão de reforma tributária, comissão de reforma da Previdência, comissão de reforma política e nunca se votou. Não foi a plenário a matéria. Precisa votar. Pode passar ou não passar. Se não passou, não passou. Pronto, o Congresso decidiu que não vai mudar o sistema tributário. O que não pode é ficar eternamente levando a tentativa de chegar num texto ideal, que não é provável.

O partido do sr. já tem um candidato mais ou menos colocado, o líder da bancada, Arthur Lira. Neste contexto, como entra sua candidatura?

Eu sou candidato avulso. Não sou candidato do meu partido. Meu partido não teve reunião de bancada para decidir nada sobre eleição da Câmara ou nenhuma das outras questões envolvidas neste processo.

O presidente Rodrigo Maia está com alguma dificuldade mesmo sendo apoiado por uma dezena de partidos. Acha viável chegar à presidência da Câmara sem o apoio do seu próprio partido?

Haverá num determinado momento, na véspera da eleição, uma convergência dos que não apoiam Rodrigo Maia em torno do nome mais viável. A quais partidos interessa que o DEM tenha três ministros e o presidente da Câmara? Quando teve a janela, anteriormente, o DEM tinha 22 [deputados] e foi para 41. O presidente Rodrigo Maia, embora apoiado por todo o centrão, varreu para dentro. O que ele pôde arrecadar, arrecadou. O que acontece num segundo momento se você dá ao DEM este tamanho de protagonismo? Esta é uma questão que também vai ser avaliada na hora da decisão final, se interessa ou não.

Até o ano passado, havia uma parceria entre partidos que estão lançando candidatos agora e o presidente Rodrigo Maia. De repente, virou um 'todos contra Maia'. O que aconteceu?

No nosso caso, foi a pretensão do nosso líder de ser candidato. Havia um acordo fechado entre Ciro Nogueira [presidente nacional do PP] e Rodrigo Maia e a relatoria do Orçamento ficaria com o PP.

E este acordo não foi cumprido?

Não é que foi descumprido. Ele não foi entregue. O líder Arthur Lira, feito o acordo, não anunciou apoio a Rodrigo Maia. Continuou fazendo reuniões paralelas com outros partidos tentando viabilizar sua candidatura. Rodrigo Maia tinha um entendimento com o partido, mas que não era efetivado através de uma manifestação do líder. Aconteceu que, em um determinado momento, o presidente Rodrigo Maia entregou ao PSD a relatoria [da CMO], consolidou o PSD no bloco dele e abandonou o PP. A candidatura do Arthur Lira mostra que, de fato, ele não estava com esta intenção de se manter no bloco do Rodrigo Maia e consolidar o espaço político da relatoria do Orçamento que o presidente Ciro Nogueira entendia que deveria ser a tarefa do líder. O Rodrigo topou, mas o Arthur não entregou. Na prática foi isso.

O voto secreto prejudica ou beneficia os candidatos de oposição a Rodrigo Maia?

Beneficia. O espírito da mudança está instalado. Uma nova Câmara, um novo presidente. O próprio PSL está desconfortável. Os deputados do PSL estão tomando bombardeio nas redes sociais para não votar no Rodrigo Maia. Não tenho nada contra o Rodrigo Maia, mas o eleitor quer uma mudança.

Colegas do sr. dizem que sua candidatura não é para valer, mas apenas uma maneira de conseguir uma presidência de comissão, uma relatoria. Sua candidatura é para valer?

Vou me inscrever. Sendo candidato avulso, só dependo da minha vontade de ser candidato. Posso ter um voto, que é o meu, como posso ter 100 votos, se houver um movimento de convergência. Eu vou concorrer.

Ao falar de sua trajetória, disse ter sido líder nos governos FHC, Lula, Dilma, ministro no governo Temer. Como isso conversa com o discurso de independência da Câmara em relação ao governo?

Sempre fui um formador de maiorias para a aprovação de matérias. O que faz a liderança de governo? Constrói os votos para aprovar as matérias que são importantes para a condução do país. Eu, presidente da Câmara, tenho a capacidade para formar maioria e aprovar matéria, que é o que o Brasil precisa. Quer aprovar reforma da Previdência, reforma tributária? Vai precisar de maioria. É o que aprendi a fazer em cinco mandatos.

E como fica a autonomia da Câmara?

Dentro da minha trajetória, a valorização do parlamentar sempre foi o meu trabalho aqui. Se você olhar as ações que pude fazer aqui enquanto parlamentar, tive que fazer coisas que contrariaram o governo.

Mesmo tendo sido ministro, líder de governo, o sr. poderia representar uma mudança?

Bem, o Bolsonaro tem mais mandatos do que eu [6 mandatos] aqui na Câmara e representou uma mudança. Não é o tempo de trajetória política. Eu não fui presidente da Câmara e, nesta função, posso produzir um resultado tão bom quanto produzi como relator do Orçamento, como produzi como ministro da Saúde. O que as pessoas esperam é que surjam novas possibilidades. A reeleição do presidente da Câmara não dialoga com a mudança.

O governo tem apostado numa pressão popular, mas ela só dura favoravelmente ao governo enquanto durar a lua de mel. Como vai ser esse trabalho de convencimento dos parlamentares sem isso, então?

Não tem votação de aplaudir aqui, nós vamos votar coisas que contrariam o interesse de muita gente, e rede social não vai estar bombando para deputado votar remédio amargo. Pelo contrário. Então a tarefa que se apresenta para o momento é nova. Não tem os métodos antigos de formar maioria, então nós temos que conseguir convencer os parlamentares de porquê aquela matéria é importante para o país.

Mas como fazer isso, se os outros governos, mesmo com o toma lá, dá cá não conseguiram?

O presidente [Michel] Temer é habilíssimo, incansável na articulação com os deputados. Então a reforma da Previdência só não foi votada porque o [então procurador-geral da República, Rodrigo] Janot mandou gravar o Temer. Vamos deixar claro que os grandes adversários da reforma são o Judiciário e o Ministério Público, são as corporações mais privilegiadas que vão ser as mais prejudicadas com a reforma. Quando o Temer foi gravado, nós tínhamos os votos, estava resolvida a reforma. Aí veio o Judiciário para tirar o ambiente [de votação]. Com o Bolsonaro eles já estão tirando o ambiente. Quem é que está solapando o Bolsonaro? MP. Quem que vaza aquelas informações seletivamente?

Como presidente da Câmara, como pretende tratar o MP e o Judiciário?

A Câmara precisa retomar o seu espaço devido na estruturação dos Três Poderes. Hoje a Câmara está um pouco abaixo, o Judiciário está se sobrepondo aos outros. Tem juiz decidindo se pode pagar auxílio-mudança, Toffoli decidindo se o voto é aberto ou fechado. Gente, nós temos um regimento, nós somos um Poder.

Como o sr. vai tratar as pautas de costumes, como Escola Sem Partido, a PEC do Aborto?

Tem que votar. Qual é o sentido que tem isso? Põe em votação e, se aprovar, aprovou. O que não pode é ficar essa posição da Câmara de não ter coragem de enfrentar os temas.

Colocar para votar as pautas de costume não tira a energia do governo para aprovar as pautas econômicas?

Nós não somos um puxadinho do Planalto. Nós somos a representação do povo brasileiro. Mas o povo brasileiro é o principal afetado pela crise econômica. Claro, mas uma coisa não impede a outra. A pauta de costumes e a pauta econômica podem caminhar juntas, porque são votações diferentes. Para cada matéria você tem uma maioria diferente.

O sr. vai colocar pra votar a reforma da Previdência ou vai esperar ter os votos?

Enquanto não tiver voto, não se vota e o problema aumenta. Essa é a estratégia que está valendo até hoje, e não votou até hoje e não resolveu o problema até hoje. Talvez se tivesse colocado em votação a reforma, nós tivéssemos aprovado algumas coisas pelo menos: a idade mínima eu acho que é consensual. Se tivéssemos votado já isso, teríamos avançado muito na reforma.

Então o sr. defende que se vote fatiado?

Coloca em votação a reforma, e o fatiamento acontece entre o que tem e o que não tem consenso pra votar. Essa estratégia de ficar esperando maioria para votar tudo tem nos levado a não votar nada. Eu sou da opinião que se você votar uma matéria e ela for derrotada, na próxima sessão legislativa você pode reapresentar. Então se não aprovou a reforma você apresenta uma nova no ano seguinte e tenta de novo. Mas aí já com o desgaste de um ano de governo. Sim, mas o fato é que nós passamos o primeiro, o segundo, o terceiro e o último sem votar.

A reforma é uma pauta para os seis primeiros meses?

É uma pauta emergencial, mas nós temos 250 parlamentares novos que têm que se convencer. O Congresso anterior já estava convencido. Quando o presidente Bolsonaro se elegeu, eu disse que o presidente deveria ter votado a reforma com o Congresso anterior, que já tinha a opinião de que era uma necessidade. Agora precisa convencer os deputados.

O Planalto não coloca a reforma nos pontos prioritários dos 100 primeiros dias. O sr. acha que vai faltar empenho do Planalto para votar?

Não. Eu acho que não vai faltar, mas não se pode votar a reforma da Previdência em 100 dias. Nós temos que aproveitar o texto que está aí, senão começa tudo de novo e vai terminar lá em setembro, se tudo correr bem. Então o que nós temos que fazer? Colocar o texto que já está pronto em votação. Se você coloca muito rápido, você não tem tempo de formar a opinião dos deputados. Se demora, tem desgaste do governo. Então isso é uma questão que tem que ser avaliada, mas se não votar logo, não vai votar mais.

Qual o tamanho do desgaste que a crise com o senador eleito Flávio Bolsonaro gera para o governo nesse início de Legislatura?

Todo governo tem uma lua de mel, então tem que se dar o governo a oportunidade de ele implementar o que prometeu na campanha. Me parece que, neste momento, nós devemos dar ao governo as condições de fazer aquilo que ele prometeu na campanha. Qualquer ação mais efetiva em relação a essa questão do Flávio só prejudica o interesse do país, que é de que as coisas avancem. Em outro momento se pode fazer uma avaliação, mas agora atrapalharia.

Uma CPI, por exemplo, deveria ser deixada para depois?

Não tem nenhum sentido [fazer agora]. Por que que não votamos reforma da Previdência? Porque ficamos votando impedimento do presidente. Agora vamos ficar votando CPI em vez de votar reforma?

Mas isso não dá uma sensação de impunidade, de estar fazendo vista grossa?

Não é hora de colocar o governo no 'corner', é hora de dar força para o governo fazer avançar o Brasil. Isso não precisa ser resolvido hoje, pode resolver depois. A reforma tem que ser resolvida hoje.

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