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Era manhã de 29 de maio de 1919. O céu de Sobral amanhecera nublado. Por volta das 8h, as nuvens abriram passagem para os raios de Sol que iluminaram a praça do Patrocínio, onde centenas de pessoas se aglomeravam. O brilho solar, porém, foi aos poucos dando lugar a uma grande sombra. Ao passo que a lua se sobrepunha ao astro-rei, a teoria de Albert Einstein encobria a de Isaac Newton como tentativa humana de explicar o universo.

“Agora o Sol boiava no espaço, todo obscurecido e emoldurado nesse belo círculo de luz ‒ a sua coroa”, anotou o correspondente do jornal Folha do Littoral, de Camocim, sobre o momento mais aguardado daquela manhã, que durou pouco mais de cinco minutos. Dali em breve, assim como as luzes se curvaram no céu, a comunidade científica se curvaria à genialidade do físico alemão. No calor do semiárido cearense, a ciência assistiu a um rito de passagem sobre si própria.

“A questão que minha mente formulou foi respondida pelo radiante céu do Brasil”, disse Einstein. Essa frase está gravada em um dos monumentos erguidos em Sobral para homenageá-lo e ilustra a grandiosidade que o fenômeno representou.

Confira abaixo a matéria também em áudio, produzida em parceria com a rádio Universitária FM:

Para o astrofísico irlandês e historiador da ciência Daniel Kennefick, da Universidade de Arkansas (EUA) ‒ que em março proferiu palestra sobre o tema na UFC ‒, o eclipse que agora completa 100 anos é um dos eventos mais importantes da história da ciência. Isso porque representa o momento de transição entre as duas teorias mais famosas de todos os tempos: a da gravidade, de Newton, e a da relatividade geral, de Einstein ‒ comprovada a partir dos experimentos realizados em Sobral.

“A expedição de Sobral foi a primeira razão séria para mudarmos de uma teoria à outra”, ressalta o pesquisador, autor do livro No shadow of a doubt: the 1919 eclipse that confirmed Einstein’s theory of relativity (Sem sombra dúvida: o eclipse de 1919 que confirmou a teoria da relatividade de Einstein).

O centenário do eclipse é também a matéria de destaque da edição de maio do Jornal da UFC

Einstein havia desenvolvido a teoria durante anos de imersão em cálculos e experiências abstratas formuladas por sua mente. Em suma, sua tese dizia que o tempo e o espaço são indissociáveis e moldados pela matéria e que, portanto, um feixe de luz teria sua trajetória desviada (deflexão) ao passar por um corpo de massa imensa ‒ no caso, o Sol. Apenas durante um eclipse solar total seria possível obter dados capazes de confirmar ou refutar tal hipótese.

A população de Sobral se aglomerou na praça do Patrocínio para acompanhar o eclipse, local onde parte da estrutura de observação havia sido montada pelos cientistas (Foto: Observatório Nacional)

Por isso, cientistas ingleses e americanos ‒ com o suporte do Observatório Nacional brasileiro ‒ montaram uma estrutura temporária em Sobral, com equipamentos de alta precisão. No momento do eclipse, fotografaram estrelas próximas ao Sol, obtendo oito chapas de boa qualidade. Em julho do mesmo ano, foi feita uma segunda rodada de fotos, dessa vez à noite.

Após meses de muitos e complexos cálculos, veio o anúncio, feito em novembro daquele ano, em Londres: Einstein estava certo. As medições apontaram resultados muito próximos dos previstos pelo físico, que a partir daquele momento se tornou uma celebridade internacional.

CURIOSIDADES

Sobral foi escolhida como local dos experimentos por ser o lugar na trajetória do eclipse com melhores condições de acessibilidade (os demais ficavam no mar ou em regiões de mata fechada, como a Amazônia e a selva do Congo). O clima seco, com céu claro na maior parte do tempo, também contribuiu para a escolha.

Segundo relato do jornal Folha do Littoral, muitos sobralenses foram ao ponto de observação no dia do eclipse portando pedaços de vidro esfumaçado, a fim de olhar para o céu sem prejudicar os olhos. “Mas parece que dentro em pouco, na fase aguda do eclipse, o ‘stock’ esgotou-se e o recurso que se apresentou foi o assalto às vidraças”, relatou o repórter.

Devido ao temor de que os cientistas fossem acometidos pela epidemia de febre amarela que assolava o País, Sobral tornou-se prioridade no combate ao mosquito causador da doença. Antes e durante a estadia da comitiva, houve todo um cuidado para proteger os pesquisadores, inclusive levando-os algumas vezes à Serra da Meruoca, onde acreditava-se não haver a presença do mosquito.

O astrônomo Teófilo H. Lee, da equipe do Observatório Nacional e integrante da expedição do eclipse, examinando o céu de Sobral por meio de um telescópio (Foto: Observatório Nacional)
O astrônomo Teófilo H. Lee, da equipe do Observatório Nacional e integrante da expedição do eclipse, examinando o céu de Sobral (Foto: Observatório Nacional)

O grupo de cientistas em Sobral foi chefiado pelos ingleses Andrew Crommelin e Charles Davidson e pelo americano Daniel Maynard, com o apoio dedicado do diretor do Observatório Nacional, Henrique Morize. Outra equipe, comandada por Arthur Eddington e Frank Dyson, se dirigiu à ilha do Príncipe, na costa da África ‒ lugar que teoricamente também seria propício à observação. Porém, o mau tempo impediu que houvesse resultados satisfatórios.

A TEORIA NOS DIAS DE HOJE

Muito de nossa atual compreensão do universo está relacionada aos pressupostos estabelecidos por Einstein, que têm se fortalecido com o passar dos anos. Em 2015, por exemplo, a ciência entrou em novo estágio após a comprovação da existência das ondas gravitacionais ‒ ondulações no espaço-tempo oriundas da fusão de corpos de grande massa. A teoria da relatividade geral previu esse fenômeno, que durante décadas mobilizou cientistas até sua comprovação.

Neste ano, o registro da primeira imagem de um buraco negro permitiu aos pesquisadores verificar que as previsões da relatividade também se aplicavam ao fenômeno, por exemplo, em relação às características do horizonte de eventos, espécie de “fronteira” do buraco negro para onde tudo é atraído, até mesmo a luz.

O teoria do Big Bang, hoje a mais aceita para explicar a origem do universo e sua permanente expansão, também está ancorada na teoria da relatividade. “Sem essa expedição [a Sobral] e sem os experimentos que foram feitos, nenhuma dessas coisas seria possível”, resume o astrofísico Daniel Kennefick.

A teoria da relatividade está presente até mesmo quando utilizamos a geolocalização em tempo real por meio do GPS dos aparelhos de celular. Se não considerasse a dilatação do espaço-tempo, o GPS jamais acertaria nossa localização. Por isso, os satélites possuem cronômetros precisos que se adaptam ao tempo na Terra.

ATIVIDADES COMEMORATIVAS

A programação do Centenário do Eclipse de Sobral foi pensada para além do nível local. Realizado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Governo do Ceará e Prefeitura de Sobral, o evento tem seu auge entre os dias 28 e 30 de maio, durante um encontro internacional no Centro de Convenções de Sobral (veja a programação).

No dia 29, data do eclipse histórico, será reinaugurado o Museu do Eclipse e lançado um selo comemorativo do centenário. Pela manhã, ocorre uma transmissão simultânea com a participação de autoridades e sociedades científicas em Sobral e na Ilha do Príncipe. À tarde, uma miniópera vai se apresentar no teatro da cidade, também com transmissão ao vivo da Noruega e de São Tomé e Príncipe. Trata-se de Gravity, criada e executada por estudantes da escola básica de Sobral, Campos dos Goytacazes (RJ), São Tomé e Príncipe e Portugal. Da orquestra, que também compõe a apresentação, participam a UFC de Sobral e integrantes da Espanha, do Canadá e do México. O projeto envolve professores da rede municipal de Sobral e do Curso de Música da UFC.

Imagem de astrônomos brasileiros, ingleses e americanos perfilados lado a lado em um local de Sobral (Foto: Observatório Nacional)
Da esquerda para a direita – equipe brasileira: Luiz Rodrigues (1°), Teófilo Lee (2°), Henrique Morize (4°), Allyrio de Mattos (7°), Domingos Costa (9°), Lélio Gama (10°), Antônio C. Lima (11º) e Primo Flores (12º). Equipe Inglesa: Charles Davidson (5°) e Andrew Crommelin (6°). Equipe Americana: Daniel Wise (3°) e Andrew Thomson (8°) – (Foto: Observatório Nacional)

As comemorações seguem até novembro. Uma das ações previstas, segundo o secretário de Educação de Sobral, Herbert Lima, é a entrega de um monumento na margem esquerda do rio Acaraú: um marco arquitetônico em alusão ao centenário.

O Centenário do Eclipse de Sobral é articulado com o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Participam das comissões da programação a UFC ‒ incluindo a Seara da Ciência ‒, a ADUFC e outras 13 instituições. Para mais informações sobre a programação, acesse centenarioeclipse.sobral.ce.gov.br e centenarioeclipse.sbpcnet.org.br.

ANO DA CIÊNCIA

As ações locais do evento começaram em 2018, um ano antes da data que marca os 100 anos da expedição científica que aportou na cidade cearense. Na ocasião, a Prefeitura de Sobral decretou o Ano Municipal das Ciências. A Seara da Ciência da UFC esteve presente com a encenação da peça A natureza da luz.

Em março deste ano, entre os dias 27 e 30, a Reunião Regional da SBPC ocorreu justamente no município e contou com o seminário Sob o Sol de Sobral – uma Janela para o Cosmos. Durante o evento, foi instalada uma escultura, em tamanho real, de Albert Einstein na margem esquerda do rio Acaraú, próximo ao local onde também será inaugurado um marco arquitetônico referente ao centenário do eclipse.

REFERÊNCIA EM PESQUISA AEROESPACIAL

Uma das revoluções mais importantes impulsionadas pela comprovação da teoria da relatividade ocorreu no campo da pesquisa aeroespacial. A UFC tem pelo menos três projetos em desenvolvimento nesse sentido.

Em um deles, é pioneira. Trata-se do desenvolvimento do primeiro nanossatélite do Norte e Nordeste do Brasil, o Satélite para Análise e Coleta de Dados Experimentais (SACODE). O projeto do Laboratório de Engenharia de Sistemas de Computação, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, tem o objetivo de obter dados do semiárido nordestino, como informações sobre previsão climática e umidade do solo, além do monitoramento de mananciais.

E a UFC também integra o time de pesquisadores que descobriu um exoplaneta. Batizado de IC 4651 9122B, foi descoberto por uma equipe de cientistas de diferentes países, incluindo o professor e astrofísico Daniel Brito de Freitas, do Departamento de Física. A descoberta é um marco na ciência: esse achado abre a possibilidade de existir outro planeta similar à Terra, protegido gravitacionalmente pela massa exacerbada do 9122B.

Já o Grupo de Desenvolvimento Aeroespacial (GDAE), projeto de extensão da UFC, cria e lança minifoguetes, como também promove divulgação científica em escolas desde 2016. Está previsto para o fim de maio o primeiro ensaio de motor do Hermes, um foguete híbrido em fase de testes, e para agosto o início da construção. A equipe é coordenada pelo Prof. Claus Wehmann, do Departamento de Engenharia Mecânica.

Importante reconhecer ainda que o Programa de Pós-Graduação em Física – ciência que ganhou um novo rumo a partir da teoria da relatividade de Einstein – tem nota máxima na avaliação quadrienal da CAPES (2017). De 2012 a 2017, mais de 600 trabalhos científicos foram publicados pelo programa, metade em revistas internacionais de alto impacto.

UFC TEM SEU PRÓPRIO ALBERT EINSTEIN

A placa na porta de um dos gabinetes do Departamento de Estatística e Matemática Aplicada da UFC gera comentários de quem passa. Teria trabalhado ali o pai da teoria da relatividade? Na verdade, trata-se de Albert Einstein Fernandes Muritiba, uma “versão cearense” do físico alemão.

O professor Albert Einstein, do Departamento de Estatística e Matemática Aplicada da UFC, sentado em sua sala de trabalho (Foto: Arquivo Pessoal)
O Prof. Albert Einstein, do Departamento de Estatística e Matemática Aplicada da UFC, é filho de um entusiasta da ciência que resolveu lhe dar o mesmo nome do famoso físico alemão (Foto: Arquivo Pessoal)

A homenagem partiu do pai, Raimundo Fernandes de Oliveira, mestre de edificações e infraestrutura da Prefeitura do Campus do Pici Prof. Prisco Bezerra. Entusiasta da ciência, Raimundo batizou um dos irmãos de Einstein com o nome de Lavoisier, francês considerado pai da química moderna e autor da famosa frase “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

“Quando criança, tinha dificuldades para pronunciar o nome, mas desde cedo sabia que se tratava de um cientista muito importante e popular. À medida que crescia e passava a entender mais seu significado, aumentava meu interesse por ciências e o orgulho por meu nome”, relembra Einstein. Já adulto, percebeu que a ideia do pai havia sido tão boa que resolveu copiá-la, dando ao filho o nome de Euler, célebre matemático suíço.

Einstein diz que temos a sorte de viver em uma época em que a teoria da relatividade já foi comprovada várias vezes e é aplicada na tecnologia que nos rodeia. “Umas das teorias mais fantásticas da história da ciência deve ser sempre rememorada para inspirar Raimundos, Einsteins, Elianes e Eulers mundo afora”.

Marcos Robério
Siria Mapurunga

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