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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Ao minimizar os riscos do coronavírus e se insurgir contra medidas de isolamento social, o presidente Jair Bolsonaro fica falando sozinho mesmo dentro de sua família política global, a da direita populista.

Os líderes mais próximos de Bolsonaro adotaram ações em linha com as recomendações de infectologistas e da Organização Mundial da Saúde (OMS), que restringem severamente a livre circulação e a atividade econômica.



Alguns aproveitaram para tentar ganhar pontos políticos e fazer avançar suas agendas antiliberais.

Um exemplo disso vem de Israel, onde o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu decretou algumas das medidas mais duras em todo o mundo contra a doença.



Elas incluem a proibição de que moradores se distanciem mais de 100 metros de suas casas, exigência para que patrões tomem a temperatura de seus funcionários constantemente e limite de um passageiro apenas por táxi. Apenas o comércio de bens essenciais está liberado.

O premiê declarou que não será possível evitar o completo fechamento do país se não houver rápido declínio do número de infectados, atualmente em 2.400, com cinco mortes.

Netanyahu luta pela sobrevivência política, pois fracassou em três tentativas de formar um governo após eleições no último ano.

Com o risco de perder o poder para o centrista Benny Gantz, usou a doença para propor um governo de união nacional e assim "salvarem dezenas de milhares de vidas". Gantz, por ora, não mordeu a isca.

Anfitrião de Bolsonaro numa recente visita, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi determinou nesta terça (24) o maior confinamento do planeta, para 1,3 bilhão de pessoas.

Houve fechamento de comércio e de escolas, proibição de chegada de voos comerciais e bloqueio de fronteiras. "A única maneira de nos salvarmos do coronavírus é não deixarmos nossas casas. Aconteça o que acontecer, ficaremos em casa", afirmou Modi, que lidera uma sigla nacionalista hindu.

Há um temor, porém, que o premiê use as medidas para reprimir seus críticos. Na terça, por exemplo, a polícia usou bombas de gás para impedir a realização de um protesto pacífico contra o governo.

A explicação oficial foi que o ato não poderia ocorrer por razões sanitárias. Além disso, há relatos de ataques recentes pelo país contra estrangeiros e jornalistas – ambos são alvos comuns em discursos de Modi.

Nos EUA, o presidente Donald Trump também adotou medidas de restrição, mas passou a dar declarações de que o país precisa ser reaberto para os negócios e chegou a dar uma data hipotética para isso: o domingo de Páscoa, dia 12 de abril.

"Seria um cronograma bonito", disse ele. As medidas nos EUA incluem restrições a reuniões com mais de dez pessoas, bem como viagens e idas a bares, restaurantes e praças de alimentação.

O presidente americano mudou o tom sobre as restrições em razão do impacto econômico do isolamento, que podem comprometer sua campanha à reeleição. Sua defesa de flexibilização das regras tem servido de modelo para Bolsonaro.

Outro aliado próximo do presidente brasileiro, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, fechou fronteiras para viagens particulares, além de escolas e lojas no período entre 15h e 6h.

À frente de um regime com instintos autoritários, Orbán tentou obter do Parlamento a aprovação de um decreto de estado de emergência por tempo limitado, durante o qual seu governo teria poderes extraordinários. A ideia foi rechaçada pelos parlamentares, no entanto.

O húngaro também aumentou a retórica anti-imigração, uma marca de seu governo. Mirou sobretudo iranianos que entraram no país.

"Nossa experiência é que estrangeiros primordialmente trouxeram a doença, que está se espalhando entre eles", afirmou, em 13 de março. Casos de contaminação por húngaros, no entanto, enfraqueceram esse argumento.

Ainda na Europa, o premiê polonês, Mateusz Morawiecki, também populista, vetou proibição de reuniões com mais de duas pessoas, com exceção de encontros familiares.

A população toda foi confinada, com exceção de atividades essenciais. Quem desobedecer as regras de isolamento pode receber multa equivalente a até R$ 35.775.

Na República Tcheca, também houve fechamento de escolas, universidades, hotéis, piscinas públicas, cassinos, praças de alimentação e do comércio em geral, com exceção de pet shops, mercados, lojas de eletrônicos e farmácias.

O premiê Andrej Babis decretou estado de emergência e obrigou o uso de máscaras para qualquer pessoas que saia na rua.

"O mundo inteiro está lidando com uma pandemia gigantesca. Todos nós estamos apenas aprendendo como reagir", disse.

Na América do Sul, onde os aliados de Bolsonaro são escassos, dois líderes próximos a ele também adotaram medidas que o brasileiro critica.

O paraguaio Mario Abdo Benítez fechou aeroportos e fronteiras e suspendeu eventos públicos e aulas nas escolas.

Já a boliviana Jeanine Añez, que ocupa interinamente a Presidência desde a saída do cargo de Evo Morales e conta com apoio do Itamaraty, proibiu a circulação de veículos públicos e privados, com exceção de transporte de suprimentos.

A população tem de ficar em casa, com apenas uma pessoa por família autorizada a sair para comprar comida e remédio. Além disso, a eleição presidencial que estava marcada para 3 de maio foi adiada.

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