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Crônica: Ainda se tiram fotografias 3×4

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A calçada estava repleta de flores daquele ipê amarelo escorregadio espalhado até a rua. De pé em pé para não levar um belo escorregão e quebrar a bacia, eu me atentava àquelas florezinhas bonitinhas, mas ordinárias.

Lá num cantinho bastante úmido próximo ao muro encontrei o papelzinho retangular virado com o lado branco para cima. No momento julguei ser uma figurinha de chicletes, se bem que hoje em dia nem existem mais chicletes com figurinhas retangulares.

Ao apanhar o papel pude perceber que se tratava de uma fotografia 3×4, e uma bela fotografia, porque geralmente fotografias 3×4 são horríveis.

Era a foto de uma moça, devia ter seus 18 anos, talvez fosse uma das fotos que tirará de sua primeira habilitação que havia caído da bolsa. Quase não se tiram mais fotografias 3×4, tudo é digital, tudo é na hora e já sai nos documentos. Contudo, aquela foto 3×4 daquela linda moça era real.

Guardei a foto em minha carteira, não tinha nada de mais arrumar um lugarzinho em minha carteira vazia e guardar a foto, o máximo que poderia acontecer é esquecer lá dentro e num futuro longínquo quando fosse trocar de carteira para uma menor, já que não precisava colocar muito dinheiro… porque nunca tinha… iria reencontrar a foto e me lembrar daquele dia em que andava em meio às flores de ipê amarelo com medo de quebrar a bacia.

Mas a gente não se conforma com essas coisas que acontecem do nada e deixa passar sem ficar pensando nessa coisa.

Todo dia à noite eu tinha que apanhar a fotografia 3×4 e ficar olhando para a bela moça de olhos claros e cabelos castanhos que iam até o ombro com uma delicada blusa escura de botões pequenos.

Diferente das redes sociais em que sabemos o nome de todo mundo, profissão, o que comem, que horas tomam banho… com aquela simples fotografia era diferente. Ficava tudo confuso, não saber o nome, não saber se mora na mesma cidade, os amigos em comum e onde poderia encontrar.

Misteriosa.

Passei a prestar atenção em toda bela moça de olhos claros e cabelos castanhos que iam até o ombro. Fiz uma verdadeira investigação nas redes sociais de todos os que conhecia e não conhecia, na cidade e nas cidades da região.

Foi impossível encontrar.

E quando o mistério e o sonho pela realização de um objetivo ficam pairando sobre a cabeça da gente, tudo fica numa espécie de bolha fechada. Fui atingido pelo amor num pequeno pedaço de papel retangular. E mesmo que nunca conseguisse encontra-la de verdade, e mesmo que outros amores surgissem em minhas andanças reais ou por redes sociais. A moça da fotografia 3×4 se tornou o grande amor de minha vida. Com o sorriso discreto vestida numa delicada blusa escura de botões pequenos.

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poet

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