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A fome tem pressa

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Dezesseis de outubro, Dia Mundial contra a Fome.
Quase um bilhão de seres humanos não possui uma alimentação saudável.
       A maioria que passa fome é constituída por mulheres e crianças. As mortes por fome, segundo dados da ONU, suplantam as mortes por sida, malária e tuberculose.
       Se todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos, os seres humanos, antes de mais nada, precisam de comida para viver e sobreviver. A fome é a mais 
violenta negação dos direitos humanos.
       Grande Josué de Castro, que merece estátuas modeladas em ouro, em bronze, ou simplesmente em pão, em todos os Horizontes e em todos os Continentes, inclusive na sede da ONU!  
Josué de Castro denunciou a fome como “problema social”. 
Graciliano Ramos, nos seus romances, mostrou que  a fome não brota do céu.  A fome tem causas na terra, nas injustiças imperantes.
Josué e Graciliano sofreram exílio e prisão.
       Parecem-nos chocantes as sociedades que estabeleciam ou estabelecem expressamente a existência de “párias”, na escala social; mas temos, na estrutura da sociedade brasileira, “párias” que não são legalmente ou expressamente declarados como tais, mas que “párias” são em verdade.  São “párias” e têm seus descendentes condenados à condição de “párias”.  São “párias” porque estão à margem de qualquer direito, à margem do alimento que a terra produz, à margem da habitação que a mão do homem pode construir, à margem do trabalho e do emprego, à margem da participação política, à margem da cultura e da fraternidade, à margem do passado, do presente, do futuro, à margem da História, à margem da esperança.  Só não estão à margem de Deus porque em Deus confiam.
       No Brasil, a grande figura profética, na luta contra a fome, foi o sociólogo Herbert de Souza, ou simplesmente o Betinho, como ficou carinhosamente conhecido.
       A fome tem pressa, disse Betinho, com extrema racionalidade.  
Condenado a morrer, Betinho lutou, até o último momento, pela vida.  Mas não tanto pela sua vida. Lutou muito mais pela vida do povo brasileiro, dos marginalizados e oprimidos, dos que são massacrados pela injustiça brutal que é a fome.
       Morto Betinho, a luta continuou e prossegue, sob a inspiração desse ser humano incomum que, com muita razão, Frei Leonardo Boff proclamou como “santo”.
Que se multiplique por este país, de todas as formas possíveis, o eco ao apelo que Betinho fez, em nome dos que não têm calorias nem para protestar.

A vida concedeu-me a felicidade de ter três encontros com Betinho:

no Rio, na sede do IBASE, para atender uma convocação sua no sentido de escrever um livro sobre a Constituinte.

       Mais uma vez no Rio, na Universidade Santa Úrsula, para participar de um debate com ele.
      Finalmente, em Belo Horizonte, para comparecer ao lançamento de um livro seu.
João Baptista Herkenhoff
Juiz de Direito aposentado (ES) e escritor
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