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BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) – Um grupo de hackers bielorrussos vazou na internet dados de 2.000 policiais, numa operação chamada de "desanonimização": dar nomes e caras aos agentes que participam da repressão aos protestos contra a ditadura no país.

Os policiais têm trabalhado com balaclavas (máscaras que deixam apenas os olhos à mostra) e, na última semana, manifestantes também arrancaram as máscaras de algum deles durante tentativas de detenção.



"Ninguém permanecerá anônimo, mesmo sob uma balaclava. Enquanto as prisões continuarem, publicaremos dados em grande escala", afirmou a ciberguerrilha em comunicado distribuído pelo Nexta, canal de notícias que funciona no Telegram, editado na Polônia.

Hackers já haviam invadido há 15 dias o site do Ministério do Interior (responsável pela segurança) e ameaçam derrubar os servidores da Receita e de outros departamentos federais.



As listas, que foram ao ar no sábado (19) e no domingo (20), contêm o nome e o sobrenome dos funcionários, ano de nascimento, local de trabalho e cargo.

Segundo a porta-voz do Ministério do Interior, Olga Chemodanova, o regime tem meios para identificar os responsáveis pela divulgação, e eles serão punidos.

Ativistas afirmaram que, após a publicação, 200 policiais procuraram o Bysol, fundo de solidariedade criado por manifestantes, pedindo para ter seu nome retirado do ar e afirmando que não fariam detenções.

Neste domingo o regime mandou para as ruas uma tropa 50% maior do que a do final de semana passado, segundo canais de informação usados pelos manifestantes nas redes sociais.

Para impedir as marchas, que se dividiram pela cidade e mudaram constantemente de rotas, a polícia bloqueou dezenas de ruas, praticamente impedindo o trânsito no centro de Minsk. Ainda assim, de acordo com a agência de notícias Reuters, mais de 100 mil pessoas participaram dos protestos.

Estações de metrô foram fechadas e a internet voltou a falhar, como em finais de semana anteriores. "De acordo com a ordem dos órgãos estatais autorizados, a largura de banda da internet móvel em Minsk foi reduzida", afirmou comunicado de uma operadora.

No final da passeata, momento em que os policiais têm feito o maior número de detenções, o canal Motolko, usado pelos manifestantes para compartilhar informações sobre protestos, aconselhava pela internet que as pessoas fizessem blocos de 100 a 200 pessoas e se prendessem pelos braços, para impedir que alguém fosse levado.

Apesar da apreensão, o Motolko também adotou o humor. "Quem estiver precisando de uma desintoxicação digital pode se voluntariar para puxar a fila para o camburão", escreveu, colocando ao lado o emoji que representa uma piscadela: ";)".Pelo menos 80 pessoas foram presas neste domingo, segundo a Reuters.

Durante os protestos, mais um membro do conselho de coordenação (criado pela oposição para negociar novas eleições) foi preso: Oleg Moiseyev, assessor da principal candidata contra o ditador Aleksandr Lukachenko, Svetlana Tikhanovskaia.

Segundo a assessoria do conselho, não havia informações sobre o motivo da prisão nem sobre seu paradeiro. Dos 7 líderes do grupo, 5 estão presos ou foram forçados pela ditadura a deixar o país.

A ditadura vem aumentando a repressão, inclusive contra as mulheres, que até o começo deste mês vinham sendo poupadas.

Neste sábado, quando ocorreu a sexta marcha semanal feminina contra a ditadura, 430 pessoas foram detidas por participarem de "ações de massa não autorizadas" (na Belarus, todo ato público precisa ser autorizado pelo regime).

Segundo o Ministério do Interior, houve protestos de mulheres em 14 cidades da Belarus. Quase todas as prisões (415) aconteceram em Minsk, e 385 já haviam sido libertados neste domingo.