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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Gravações e mensagens de investigados por superfaturamento de contratos e desvios de recursos destinados ao combate da Covid-19 no Amazonas podem mostrar o envolvimento do governador Wilson Lima (PSC) no suposto esquema de corrupção. O material foi divulgado pelo Jornal Nacional, na noite desta segunda-feira (20).

A Polícia Federal encontrou mensagens trocadas pelos investigados em telefones celulares apreendidos durante a operação Sangria, que investiga as supostas fraudes.



Em uma das mensagens, do dia 4 de abril, Rodrigo Tobias, então secretário de Saúde, conversa com o secretário adjunto da pasta, Perseverando Garcia, e diz que o governador Wilson Lima conhecia um empresário que financiaria os respiradores para o governo.

"Eu estou recebendo muitas demandas e uma delas que eu quero canalizar é do governador, parece que ele tem um canal de um empresário aqui do Amazonas, o cara é grande. O cara tem bala na agulha e o cara se prontificou a fazer as compras pelo governo do estado. E a gente segue com o rito normal dos nossos processos e procedimentos para comprar dele", diz Tobias.



Em outra mensagem descoberta na investigação, o então secretário adjunto sugere a realização de uma licitação fantasma para comprar os respiradores de uma loja de vinhos que estaria envolvida no esquema.

"Por que eu não corro com um processo fantasma, cara? E aí faço o empenho, entendeu? É muito melhor do que empenhar sem nada e mandar pagar, não tem garantia, cara, nenhuma. Não tem amparo nenhum", ele disse, segundo a Polícia Federal.

De acordo com o inquérito policial, o governo do Amazonas encomendou respiradores da loja de vinhos FJAP e esta, por sua vez, comprou os equipamentos da Sonoar, que vende esse tipo de produtos. A loja de vinhos teria vendido os respiradores para o governo com superfaturamento de 133%.

Suspeito de liderar o esquema, o governador Wilson Lima foi alvo de busca e apreensão na primeira fase da operação Sangria, em junho. A Justiça bloqueou parte dos bens dele.

No dia 8 de outubro, o vice-governador do Amazonas, Carlos Almeida (PTB), foi alvo da segunda fase da operação. O gabinete dele foi revistado por agentes da Polícia Federal e servidores da Controladoria Geral da União (CGU), que cumpriram cinco mandados de prisão e 11 de busca e apreensão contra servidores e ex-servidores do governo estadual suspeitos de envolvimento no esquema.

Entre os presos estava o ex-secretário Rodrigo Tobias. Junto com os demais, ele foi solto no domingo (18) porque venceu o prazo da prisão temporária.

"Foi constatado que o vice-governador tem grande ingerência e influência nos atos praticados pela pasta da secretaria de Saúde. E também a atuação de um empresário, que era o verdadeiro elo entre a cúpula do governo e a empresa [beneficiada]", disse o delegado regional de Investigação e Combate ao Crime Organizado da Superintendência da PF no Amazonas, Henrique Albergaria Silva, quando ocorreram as prisões.

Os equipamentos que teriam sido superfaturados foram comprados em abril, quando o sistema de saúde do Amazonas entrou em colapso por causa da pandemia do novo coronavírus.

O governador Wilson Lima disse ao Jornal Nacional que está à disposição para esclarecimentos e que pauta a gestão dele pela ética e transparência.

O vice-governador Carlos Almeida garantiu que não cometeu nenhum ato ilícito. O ex-secretário Rodrigo Tobias também negou envolvimento em irregularidades.

A defesa de Perseverando Garcia só vai se manifestar quando tiver acesso aos autos.

A FJAP informou que importa equipamentos médicos e vinhos e que aplicou uma margem de 10% como lucro e 10% de impostos. A Sonoar não se manifestou.