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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em um novo recuo na agenda ultraconservadora imposta pelo ex-chanceler brasileiro Ernesto Araújo, o Brasil se absteve na votação da ONU nesta quarta-feira (23) que decidiu condenar o embargo americano imposto a Cuba há quase seis décadas.

Pela 29ª vez, a maioria dos países que integram a organização aprovou a resolução com 184 votos favoráveis, dois contrários, de EUA e Israel, e três abstenções -além do Brasil, Ucrânia e Colômbia também não votaram.



O posicionamento brasileiro já era esperado, com a saída de Donald Trump da Presidência dos EUA e de Ernesto do Itamaraty. Na última vez que a resolução foi apresentada, em 2019, o governo Jair Bolsonaro rompeu uma tradição de 27 anos e votou a favor do embargo. Apenas Brasil, Israel e Estados Unidos adotaram essa posição, contra 187 países. Colômbia e Ucrânia se abstiveram.

Na ocasião, o corpo técnico do Itamaraty tentou até o último minuto convencer o então chanceler a não se alinhar ao governo Trump na votação. O principal argumento apresentado à época foi que a resolução não significava um apoio ou condenação à ditadura cubana, mas o reconhecimento de que sanções unilaterais como a aplicada pelos EUA são ilegais no âmbito do direito internacional.



O histórico de votos favoráveis do Brasil à resolução também é justificado pela defesa do país ao princípio de não ingerência em outras nações. Foi inclusive levantado que o Brasil não deveria votar contra a resolução porque o próprio país poderia se prejudicar no futuro –por exemplo, na possibilidade de sanções econômicas devido à política ambiental na Amazônia.

Apesar do apelo de diplomatas que atuam na área –que defenderam a abstenção do país–, Ernesto determinou que o Itamaraty apoiasse a linha dos EUA. À época, o então chanceler disse que era preciso condenar a influência cubana no regime chavista da Venezuela e em outros países latino-americanos.

A pandemia da Covid adiou a análise da resolução pela ONU em 2020 –desde 1992 a votação ocorria anualmente. Os cubanos aproveitaram o contexto de crise sanitária para só apresentar a pauta depois da eleição nos Estados Unidos, apostando na derrota de Trump.

Após a votação, o chanceler cubano, Bruno Rodríguez Padilla, defendeu o fim do embargo, afirmando que, "assim como o vírus, o bloqueio sufoca e mata". Já o coordenador político da missão americana na ONU, Rodney Hunter, disse que os EUA "estão com todos na defesa da liberdade de Cuba" e que a população da ilha merece "o direito à liberdade de expressão, reunião e cultura". "Nenhum governo deve silenciar seus críticos com violações de seus direitos humanos. Os Estados Unidos são contra essa resolução."

Em vigor desde 1962, o embargo foi aprovado por lei, e só o Congresso americano pode acabar com a medida.