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HERCULANO BARRETO FILHO
SÃO PAULO, SP (UOL-FOLHAPRESS) – A mãe de Gabriel Hoytil Araújo, jovem negro de 19 anos morto a tiros na tarde desta quarta-feira (20) em uma operação de combate ao tráfico de drogas da Polícia Civil no Morro do Piolho, na zona sul de São Paulo, contesta a ação dos agentes no local. O caso gerou comoção em decorrência da foto de uma marmita suja de sangue após os tiros que resultaram na morte de Gabriel, atingido na mandíbula e na coxa esquerda.

"Ele morreu sem chance de se defender. Meu filho nem comeu a marmita. Já que estavam ali para combater o tráfico, poderiam levar para a delegacia. Esse é o trabalho da polícia, não chegar e matar. Por que mataram o meu filho?", desabafou a auxiliar de serviços gerais Fabiana Hoytil da Silva, de 41 anos.



Gabriel se enquadra no perfil revelado ontem em levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) -segundo o estudo, 80% das mortes violentas com vítimas entre 15 e 19 anos são de pessoas negras.

O assassinato está sendo investigado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que apreendeu as armas usadas na ação e uma réplica de arma de fogo encontrada no local onde o jovem foi morto.



Moradores contradizem versão da polícia
Testemunhas do crime e agentes envolvidos na ocorrência serão ouvidos nos próximos dias, segundo a Polícia Civil. Em nota, a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) relacionou a morte do jovem à ação do tráfico de drogas e informou que "criminosos resistiram à ação dos policiais civis, que intervieram".

Contudo, essa versão é contestada por testemunhas ouvidas pelo UOL sob a condição de anonimato, que informaram que o jovem estava sentado em um banco enquanto comia a marmita. Um morador da comunidade disse ter ido ao local do crime após ter ouvido os disparos e negou qualquer tipo de confronto com o tráfico.

Ele informou ainda ter conversado com os agentes, que inicialmente teriam dito que Gabriel teria atirado. Posteriormente, ainda segundo a versão da testemunha, um dos policiais disse ter disparado após o jovem ter tentado retirar a arma dele. Após ser baleado, o jovem caiu sobre a marmita. O morador disse não ter visto réplica de arma no local do crime.

O caso também está sendo monitorado pela Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, que está em contato com a população local.

"Um rapaz contou que um dos policiais ficou gritando: 'Não devia ter atirado. Por que você atirou?'. Foi uma ação onde é muito comum essa violação de direitos da polícia com os moradores. Já existe um processo de criminalização daquele território", disse Marisa Feffermann, que faz parte do grupo.
Última conversa com o filho pelo WhatsApp
Gabriel morava com a mãe, o padrasto e dois irmãos gêmeos de 12 anos. Em entrevista ao UOL, a mãe dele relembrou da última conversa com o filho pelo WhatsApp instantes antes da sua morte. Em uma rápida troca de mensagens na quarta-feira (20) pela manhã, o jovem demonstrou preocupação com o estado de saúde da mãe, que se recupera de um AVC.

O enterro, que está marcado para este sábado (23) no cemitério do Campo Grande, zona sul de São Paulo, foi bancado graças ao auxílio da própria comunidade, diz a mãe. Para Fabiana, a principal preocupação era demonstrar que o filho era "querido por todos".

"Eu não tinha esse dinheiro. Aí, todo mundo arrecadou para ajudar com as despesas. Se ele fosse um menino ruim, ninguém iria querer ajudar. Todo mundo gostava do meu filho. Era um menino que tinha um coração bom", desabafou.

A mãe disse ter sido informada sobre a morte do filho por uma moradora, em mensagens pelo celular. Fabiana disse ainda desconhecer o suposto envolvimento do jovem com o tráfico de drogas alegado pela Polícia Civil. "Meu filho vendia água no sinal de trânsito".

E, antes de desligar a ligação aos prantos, revelou um único desejo, com a certeza de que não será atendida: "Eu só queria ter o meu filho de volta".